O que são, e para que servem?
Desde a Antiguidade Clássica que temos as várias figuras mitológicas, muitas vezes deuses ou semideuses, que retratavam entes híbridos, ou seja, uma combinação de outros seres, os quais eram dotados de determinados atributos ou simbolizavam qualidades específicas.
Por exemplo: as conhecidas esfinges egípcias, figuras enigmáticas com cabeça humana e corpo de leão; entre os Assírios encontramos os touros alados (o corpo é de touro, mas com asas e cabeça humana); um motivo tipicamente persa era o leão com asas e chifres de bode; entre os Hebreus podemos encontrar os querubins (esfinges aladas que surgem abrigando sob as asas a Arca da Aliança, no Templo de Salomão); os antigos Gregos nutriam especial predileção pela quimera, uma criatura com cabeça de leão (símbolo do poderio helênico) que exalava fogo pela boca, tinha o corpo de uma cabra e cauda de serpente – essa designação acabou por ser adotada para designar genericamente outros tipos de seres fantásticos, cujos corpos eram a combinação de dois ou mais animais conhecidos.
Assim, e ainda na mitologia grega, surgem, entre outros, as hárpias (que tinham cabeça e torso de mulher, pernas e cauda de ave e também asas), os sátiros – cujos equivalentes romanos eram os faunos – (com torso humano, cabeça com chifres, e a metade inferior do corpo semelhante à de um bode), os centauros (parte homens, parte cavalos) e os grifos (com cabeça, bico, asas, torso e patas dianteiras semelhantes às de uma águia, mas com orelhas, membros inferiores e cauda de leão), os quais também encontramos entre os Persas.
As primeiras referências escritas a respeito das quimeras surgem na Antiguidade, nos escritos dos gregos Homero e Hesíodo.
Acima: as esfinges aladas (querubins) guardando a Arca da Aliança no Templo de Salomão e o touro alado, da cidade assíria de Nimrod.
Enfim, são incontáveis, embora muitas vezes baseadas em temas muito parecidos, as imagens que reuniam as características destas figuras híbridas e que foram adotadas por diferentes povos, sendo quase certo as mais antigas terem influenciado as seguintes, mesmo em espaços geográficos relativamente distantes.
Mas qual era a função de tais imagens? Uma das explicações mais usadas é a de que elas serviam como guardiãs, protegendo das influências maléficas os locais onde estavam fixadas.
As quimeras antigas representavam divindades ou heróis míticos com poderes sobre-humanos, esse papel protetor fica ainda mais evidente pela maneira como são retratadas: jóias ou amuletos, em recipientes e escudos, pintadas, esculpidas, surgindo tanto em templos como em edifícios públicos e até mesmo em casas particulares.
Embora freqüentemente apelidadas de gárgulas, as figuras que ornamentam a famosa Catedral de Notre-Dame são, na verdade, apenas quimeras, já que a sua função é meramente decorativa.
Acredita-se que as chamadas gárgulas, figuras muitas vezes quiméricas, começaram a ser utilizadas para embelezar as calhas por onde as águas escorriam dos telhados para o chão.
Em algumas edificações gregas, ao longo dos telhados inclinados, nas extremidades destes e também ao longo das paredes, existiam pequenas canaletas usadas para recolher a água das chuvas. Em alguns casos, a água era conduzida para baixo e saía por trás da escultura de uma cabeça de leão, escorrendo por sua boca (acreditava-se que a figura do leão protegia não só contra os inimigos terrenos, como contra espíritos malignos).
Mas seria Idade Média, entre os séculos XII e XV, no período da construção das grandes catedrais góticas, que as gárgulas viriam a se popularizar na Europa Ocidental especialmente na França, também na Inglaterra e, em menor escala, em outros países. Porém, nessa altura, as temáticas representadas já tinham se diluído, recebendo influências de outros povos e culturas, como os Celtas e os Normandos, sob o olhar atento da Igreja de Roma.
Ao que parece, as gárgulas começaram sendo peças feitas em madeira ou cerâmica. Porém, após a generalização do uso da pedra para essa finalidade (especificamente o calcário ou o mármore, embora tenham também existido esculturas em terracota, que não chegaram aos nossos dias) é que surgiu a possibilidade de passar a esculpir as figuras com maior riqueza de detalhes. Também são conhecidos alguns exemplares raros feitos em metal.
Quando nos referimos às gárgulas, talvez nos venha à lembrança as numerosas criaturas grotescas que podemos encontrar na catedral parisiense de Notre-Dame – um exemplo clássico, inspirador de histórias que incluíam personagens como Quasimodo, o famoso corcunda, criado pelo romancista francês Victor Hugo.
Assim como nas construções gregas, um dos motivos mais apontados para a utilização das gárgulas refere a necessidade, em termos de conservação das obras arquitetônicas, de fazer com que a água das chuvas fosse captada após escorrer pelas paredes das construções, conduzida por canaletas que separavam esse escoadouro em várias direções, e o soltando bem longe das paredes e fundações no exterior das mesmas construções, evitando assim que se infiltrassem no solo junto aos alicerces, onde arruinariam a estrutura, ou que desgastassem as pedras exteriores, comprometendo a estabilidade da construção.
Para que essas goteiras e canaletas não destoassem do conjunto arquitetônico de toda a edificação, surgiu a hipótese de serem ornamentadas com esculturas. Porém, pelo menos no começo, isso só acontecia nos edifícios de maior porte ou nas construções pertencentes aos nobres, já que se tratava de um trabalho bastante caro para a época – quase tanto como outras figuras no interior dos templos, também as gárgulas eram ricamente pintadas e algumas chegavam a receber ornamentos dourados.
Muitas das conhecidas quimeras e gárgulas da Catedral de Notre-Dame não são, na verdade, medievais. Foram desenhadas por Viollet-le-Duc, já no século XIX, durante os trabalhos de restauração da Catedral.
As figuras grotescas, e a origem da expressão "Gárgula"
O termo grotesco – onde se encaixam tanto as quimeras (já pouco mais que decorativas) como as gárgulas (exclusivamente aplicadas nas saídas de água) e ainda outras figuras monstruosas exibidas também no interior dos edifícios – só se generalizou durante o Romantismo.
É possível classificar estas figuras como sendo antropomórficas (que retratatam a figura humana) ou zoomórficas (que representam animais), bem como detectar a sua evolução ao longo dos séculos.
Embora seja difícil datar com precisão quando muitas das gárgulas foram esculpidas, é fácil constatar que, gradualmente, começou a se desenhar uma preferência por formas alongadas (as mais recentes projetam-se para fora cerca de um metro em relação às paredes em que se apóiam). Nota-se também que aparece, a partir do século XIII, uma maior tendência para retratar figuras humanas em vez de animais e também uma maior ênfase nos detalhes. Mais tarde acentuam-se a sua maldade e o seu caráter disforme e assustador, que irá aos poucos se tornando menos demoníaco e mais caricato, característica que evidencia o termo grotesco, dado o exagero nas poses e expressões dos personagens. Verifica-se também que as temáticas vão sendo cada vez menos religiosas e mais mundanas.
Relativo ao uso das gárgulas durante a Idade Média, muitas das fontes que discutem sobre o tema começam pela própria designação de gárgula. Uns afirmam que a palavra que se refere ao "gorgolejar" da água quando passa através de um orifício; outros dizem que provém do termo latino "gorgulio" ou do francês "gargouille", ambos significando "garganta". Esta última tese tem seu apoio na Lenda de La Gargouille.
Rezava a lenda medieval que, no século VII, vivia na região de Paris, numa gruta próxima do Rio Sena, um dragão apelidado La Gargouille, com o hábito de sair do seu covil para engolir barcos e pessoas. O povo local vivia aterrorizado e todos os anos sacrificavam uma vítima ao dragão, numa tentativa de acalmá-lo. Eles acabariam por serem salvos por um padre, que prometeu derrotar o dragão se fosse erguida uma igreja no local e todos os habitantes concordassem em serem batizados. Após um combate decisivo, o dragão foi derrotado e o padre arrastou o corpo do monstro para a aldeia, onde o queimou. Porém, a cabeça e pescoço do dragão não arderam, e acabaram sendo colocados numa das paredes da igreja.
Mas, além dessa lenda, que não esclarece muito em relação à exibição das gárgulas e quimeras nos edifícios medievais, particularmente os religiosos – sobretudo porque, no início, muitas destas figuras eram de inspiração pagã e pré-cristã – há outras tentativas de explicação para este fenômeno.
Alguns investigadores defendem a idéia de que, assim como na Antiguidade, a função destes seres grotescos é a proteção. O seu aspecto assustador teria como finalidade manter à distância dos edifícios (e daquilo que continham) as forças do mal e os seus emissários, (o Demônio e seus servos). Outra idéia, meio inesperada, é a de que as gárgulas não são para assustar, mas sim uma expressão aterrorizada das próprias figuras após terem presenciado algo de sinistro.
A idéia mais aceita é a de que, numa época em que poucos sabiam ler, era importante ensinar ao povo os conceitos cristãos, recorrendo às imagens, dando-lhes a noção do que aconteceriam àqueles que se desviassem dos caminhos da verdadeira fé (nessa época, as deformidades físicas eram tomadas como castigos divinos por pecados praticados, ou como provas de que os que deficientes físicos tinham compactuado com as forças das trevas – uma justificação adicional para o aspecto grotesco e exagerado de algumas representações).
Mas esta tese tem também pontos fracos: um deles é o fato de os grotescos surgirem igualmente em edifícios públicos e em casas particulares; um outro é o de as imagens não estarem de acordo com o padrão comum às restantes representações religiosas típicas do período em questão. No entanto, parece haver, por exemplo, uma relação simbólica entre os sete pecados capitais e alguns dos animais representados: orgulho/leão, inveja/serpente, ira/javali, preguiça/burro, ganância/lobo, gula/urso e luxúria/porco –, e sua observação freqüente poderia levar os fiéis a refletirem sobre as respectivas condutas.
Por fim, há também quem seja da opinião de que é pouco provável que se consigam extrair ensinamentos com significado religioso de muitas das figuras, principalmente das que são antropomórficas, moldadas durante a fase final do período gótico. Nestas se sobressaem as caretas e posturas corporais mais ridículas e cada vez menos assustadoras, motivo pelo qual se julga que poderiam ser uma forma de chacota relativa à personalidades locais, de crítica social ou dos costumes da época.
Outra coisa que tem intrigado os estudiosos é que mesmo as gárgulas e quimeras estando colocadas numa altura que as deixavam quase invisíveis à partir do chão, porque é que foram esculpidas com tão grande preocupação em detalhes? Uma das explicações é que essas esculturas foram realizadas para glorificar o Senhor, como todas as catedrais góticas, e por isso foram colocadas tão altas (mais próximas dos Céus).
Enfim, o assunto sobre essas curiosas figuras é muito vasto, ainda mais no que diz respeito às influências das mais variadas origens, geográficas e também culturais. Embora tenham perdido a carga simbólica que tiveram em outros tempos, ainda hoje elas mantêm o seu fascínio, e são aplicadas como ornamento em várias construções, e muitos ainda tentam decifrar os mistérios que elas parecem obstinadas em encobrir...
Matéria baseada no texto original:
Gargoyles and Other
Monsters in Norman and Gothic English Style

Copyright © 2000/5 LewÐ - Dies Mercurii XXXI Maius MM